Neste ano de 2008 o
corre o décimo sétimo aniversário do massacre de Santa Cruz. Foi um
acontecimento triste para os Timorenses, especialmente para as famílias
daqueles valorosos jovens e adolescentes que morreram inocentemente, só
por quererem exigir o direito à liberdade e à preservação da sua
identidade timorense.
Antecedentes
No
dia24 de Abril de 1974, deu-se em Portugal o chamado “Movimento das
Forças Armadas (FMA), que derrubou o Estado Novo e restaurou o regime
democrático. A chamada “Revolução dos Cravos” proporcionou reformas
domésticas em Portugal e catalisou os movimentos de independência que
despontavam nas então Províncias Ultramarinas.
Em Timor
Português, embora tivesse havido nos séculos anteriores muitas rebeliões
contra a Coroa Portuguesa, não havia até ali, movimentos ou partido
políticos. Os eventos na Metrópole fizeram surgir as primeiras
organizações políticas na história de Timor.
O primeiro grupo a
organizar-se foi a União Democrática Timorenses, ou a UDT, fundada a 11
de Maio de 1974. Entre os membros fundadores, registam-se os nomes de
Francisco Lopes da Cruz, César Augusto da Costa Mouzinho, os Irmãos
Carrascalão (Manuel, João e Mário), Domingos de Oliveira, etc. A UDT
tinha como objectivos a continuada associação com Portugal, e uma
eventual independência a longo prazo.
Em 20 de Maio de 1974, é
fundada em Díli a Associação Democrática Timorense (ASDT); os membros
fundadores, Francisco Xavier do Amaral, José Manuel Ramos Horta, Mari
Alkatiri, entre outros. O primeiro manifesto da ASDT reclamava a
rejeição do colonialismo, a imediata participação dos timorenses na
administração e governos locais, a luta contra a corrupção e um bom
relacionamento com os países vizinhos. A 9 de Setembro de 1974, com a
chegada da Metrópole de alguns estudantes universitários (Abílio Araújo,
António Carvarino, Hamis Bassarewa, Vicente Reis, Roque Rodrigues,
César Maulaka), a ASDT transforma-se em Frente Revolucionária de Timor
Leste Independente, FRETILIN, caracterizando-se por um forte
nacionalismo e anticolonialismo.
A 27 de Maio de 1974, é fundada a
Associação Popular Democrática Timorense, APODETI. Os seus membros
provinham daqueles Timorenses descontentes com o Governo Português,
daqueles que tinham estado implicados na revolta de 1959, em Viqueque,
Watocarbau e Watolari, e alguns membros da comunidade árabe, de Díli, os
quais tinham solicitado a integração ao cônsul da Indonésia. Integravam
a nova associação, Arnaldo dos Reis Araújo, Guilherme Gonçalves, José
Fernando Osório Soares, Abel Belo, etc. A Apodeti declarava desde o
início que um Timor independente não seria economicamente viável a não
ser que fora apoiado pelos seus irmãos étnicos na Indonésia. O Mentor do
ideário da Apodeti, foi major português Arnao Metelo, delegado do MFA,
em Timor.
Mais tarde surgiram três pequenos partidos: O Klibur Oan Timor Assuwai, ou KOTA, formado por alguns liurais; O Partido Trabalhista, liderado por José Martins e Adilta ( Associação Democrática para a Integração de Timor com a Austrália).
A
posição do Governo de Lisboa foi transmitida em Junho de 1974 pelo
então Governador Fernando Alves Aldeia, sob a forma de três opções:
primeira, manutenção da associação com Portugal; segunda, independência,
e terceira, integração na Indonésia. Em Novembro de 1974, chega a Timor
o novo governador Mário Lemos Pires, acompanhados por oficiais do MFA,
ente os quais se destacavam pela sua posição esquerdista os majores
Francisco Mota e Costa Jónatas. A nova equipa estabelece em Dezembro de
1974 um conselho governativo com o propósito de chamar todos os partidos
ao processo político de descolonização. A 25 de Janeiro de 1975, a UDT e
a Fretilin tinham formado uma coligação para impedir a integração de
Timor na Indonésia. Do ideário dessa coligação destaca-se:
“Reconhecimento formal da independência de jure de Timor Díli ou Timor
Leste do Governo Português com eliminação da Apodeti; Rejeição da
integração de Timor Díli ou Timor este em qualquer potência estrangeira,
nomeadamente Indonésia. Reconhecimento do Governo Português como único
interlocutor válido no processo da descolonização” A coligação que
suscitou em dado momento esperanças para a maioria do Povo Timorense,
não teve vida longa. Por causa de violência física e verbal praticada
pelos partidários da Fretilin contra membros da UDT e, por divergência
ideológica, a UDT decide romper com a coligação em Maio do mesmo ano. Os
serviços secretos da indonésia trabalhavam em força para aliciar alguns
membros da UDT para começarem a defender a tese da integração. O
Governo Português tenta controlar a situação interna com a convocação de
uma cimeira em Macau, à qual a Fretilin não participou.
No dia
11 de Agosto de 1975, a UDT, denominando-se Movimento Anti-comunista
(MAC) desencadeia um golpe de Estado, com o fito de ser o único
interlocutor junto do Governo Português e neutralizar a Fretilin e
expulsar os membros esquerdistas do FMA. Apresentou algumas exigências:
1. Que o Governo tomasse medidas firmes e urgentes para expulsar de
Timor todos os comunistas; 2. Que fossem expurgados da Fretilin todos os
seus elementos comunistas; 3. Que o governador Lemos Pires continuasse a
exercer as suas funções, etc.
A Fretilin apoiado pelos sargentos
e praças timorenses, simaptizantes da Fretilin, inicia o contra-golpe e
começa pouco a pouco conquistar os bairros de Díli e com grande
facilidade ocupam pontos estratégicos da cidade Díli. Os líderes da UDT,
abandonam o quartel-general em Palapaço procura refúgio na fronteira.
Os líderes da Apodeti, Kota e do partido Trabalhista não resistem ao
avanço das forças da Fretilin e dirigem-se também para a fronteira.
No
dia 27 de Agosto, o Governador Mário Lemos Pires e toda a sua equipa
abandona Díli e retira-se para a Ilha de Ataúro. Nos meses de Setembro e
Outubro, a Fretilin já controlava todo o território. Mas, por outro
lado, as forças indonésias estavam a preparar infiltrações esporádicas
na fronteira. No dia 17 de Agosto de 1975, os Indonésios emitem a partir
de Kupang campanhas difamatórias contra os lideres da UDT e da Fretilin
na chamada Rádio Ramelau, montada pelos serviços secretos indonésios..
Depois da tomada de Batugadé pela Fretilin, os indonésios organizam
forças voluntarias (Pasukan Sukarelawan), sob o comando do Coronel Dadin
Kalbuadi para e invadir Timor. Começa um período de conflitos entre as
Falintil (da Fretilin) e os Voluntários (elementos das forças armadas
indonésias) os Partisan (timorenses pró-integração). Foi nessa altura
que se deu o assassinato dos cinco jornalistas em Balibó.
A 24 de
Novembro de 1975, a Fretilin apelou ao Conselho da Segurança para
intervir numa conjuntura em que o território enfrentava ataques de
barcos de guerra, infantaria e aviões indonésios.
Nos finais de
Novembro de 1975, deram-se as declarações unilaterais. Prevendo uma
possível invasão da Indonésia, assistindo a inércia do ONU e a falha a
do Governo de Lisboa em resolver o problema da descolonizaçã o Comité
Central da Fretilin toma decisão de proclamar unilateralmente a
independência no dia 28 de Novembro de 1975. A cerimónia celebrou-se em
frente do Palácio do Governo. A bandeira de Timor-Leste substituiu a de
Portugal. Ficou como 1º presidente Francisco Xavier do Amaral, e
primeiro ministro, Nicoalu Lobato. No dia 30 do mesmo mês os partidos
pró-integração, Apodeti, UDTe Kota e o Pátio Trabalhista, proclamaram em
Integração de Timor na Indonésia. Baseando-se nesta declaração de
Timorenses pró-integração, a Indonésia depois da visita do Presidente
norte-americano Gerald Ford e do secretário do Estado Henry Kissinger,
invadir Timor Leste. Na madrugada do 7 de Dezembro, a ABRI (Angkatan
Bersenjata Rebublik Indonésia) iniciava a espectacular invasão de Díli,
dano execução a um dos pontos principais da conhecida “Operasi Komodo”
gizada pelo general Ali Murtopo e executada, na parte militar, pelo
major-general Benny Moerdani. A esta parte da operação davam os
Indonésios o nome de “Operasi Seroja” (Lotus em flor). Os barcos
indonésios bombardearam duramente os objectivos militares, os
pára-quedistas foram lançados sobre a cidade de Díli. Os fuzileiros
navais e infantaria desembarcaram em massa e as forças especiais
procuraram ocupar os lugares estratégicos. As forças armadas da Fretilin
abandonam a cidade de Díli e recuam para as montanhas a sul de Díli,
iniciando a guerrilha.
Portugal apresentou queixa ao Conselho da
Segurança da ONU e, cortou unilateralmente as suas relações diplomáticas
com a Indonésia.
Em 17 de Dezembro de 1975, O regime de Jakarta
estabelece em Díli o governo provisório (Pemerintah Sementara Timor
Timur) e uma assembleia provincial de deputados (Dewan Perwakilan Rayakt
Tingkat Satu). Como 1º governador foram escolhidos Arnaldo dos reis
Amaral e vice-governador, Francisco Lopes da Cruz. Para presidente da
Assembleia provincial escolheu-se Guilherme Gonçalves, régulo de Atsabe.
Entretanto o governo da “República Democrática de Timor Leste”, já nas
montanhas de Timor apelava para a intervenção de países amigos,
sobretudo das antigas colónias portuguesas. Tornadas independentes, e
para a ONU. No dia 12 de Dezembro de 1975, a Assembleia Geral da ONU
aprovou por maioria a Resolução 3485, em que se definia o direito
inalienável de Timor à autodeterminação e independência e lamentou a
invasão militar do exército indonésio. Esta decisão foi confirmada
depois pelo Resolução 384 do Conselho da Segurança, que apelava à
Indonésia para retirar as suas tropas, e atribuía poderes de verificação
ao Secretário-geral da ONU. Na primeira votação na Assembleia Geral das
Nações Unidas, sobre a questão de Timor, apenas 12 dos seus membros
votaram a favor da Indonésia e 79 contra. A Resolução de 1975 foi
renovada todos os anos entre Dezembro de 1976 e Novembro de 1982, mas as
votações foram sendo mais favoráveis à Indonésia. No ano de 1982,
quando a Assembleia Geral das Nações Unidas inscreveu pela última vez a
“Questão de Timor” para outra aprovação, os votos contra a Indonésia
desceram para 50 e a seu favor subiram para 48.
Em 17 Maio de
1976, o Parlamento Nacional da república da Indonésia aprovou uma Lei
Constitucional que integrou formalmente Timor Português na Indonésia,
como uma das suas províncias com o nome de “ Propinsi Daerah Tingkat I
Timor Timur”. De 1976 até 1979, o território estava totalmente vedado
aos órgãos de informação. A maioria da população tinha procurado refúgio
nas florestas e nas montanhas. As violentas campanhas de
bombardeamentos obrigavam as pessoas a mudarem-se continuamente de um
sítio para outro. No dia 28 de Dezembro de 1978, foi morto o segundo
presidente da RDTL, Nicolau Lobato. Entretanto Xanana Gusmão conseguiu
reorganizar a Resistência. Em 1981, os indonésios, desejando esmagar
para sempre a Resistência inicia uma outra operação militar, no decurso
do qual se deu o massacre mas montanhas de Santo António. Massacre esse
que foi denunciado pelo Monsenhor Martinho da Costa Lopes, depois da
procissão do dia 13 de Outubro de 1981.
Em 2 de Abril de 1982 , a
Assembleia da República de Portugal criou uma Comissão Eventual de
Acompanhamento da Situação em Timor Leste, mostrando assim que o governo
sentia alguma responsabilidade pelo facto de em nada ter contribuído,
até aí, para evitar o genocídio que o Povo de Timor estava a sofrer.
Nesse mesmo ano, Perez de Cuellar propôs à Assembleia Geral retirar o
caso da “Questão de Timor” da discussão na própria Assembleia e promover
os contactos directos entre os representantes de Portugal e Indonésia.
De facto, os representantes dos dois países encontraram-se em Nova
Iorque em Julho de 1983, e desde então tentaram chegar a um acordo
‘honroso’. Entretanto, em Timor Leste, elementos da Abri e a Resistência
iniciaram contactos para um “cessar fogo”. Assim, em Março de 1983,
Xanana Gusmão encontrou-se m Buburake (Viqueque) com os Majores
Stephanus Gatoto e William. Desse o primeiro encontro marcou-se outro
encontro entre Xanana Gusmão e o Danrem Purwanto, para discutir o
cessar-fogo. Esse encontro veio a realizar-se no dia 23 de Março. Uma
semana depois, o Comandante Kai Rala Xanana volta a encontrar-se com o
governador Eng. Mário Carrascalão. Em Jakarta as cúpulas militares não
estavam de acordo com o cessar-fogo. Purwanto, foi mandado regressa
sendo substituído pelo coronel Rudito.. Em Agosto de 1983, deu-se o
grave incidente de Crarás. Novos batalhões indonésios são enviados para
Timor.
Em 13 de Janeiro de 1988, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia tinha declarado que Timor Timur podia ser visitado por uma delegação de deputados portugueses, desde que eles fossem para observar, e não para investigar.
No
dia 5 de Fevereiro recebo na minha residência de Lecidere um estudante
timorense do SMA Negeri 1, Becora, que, chorando, me contava como os
alunos timorenses foram naquela manhã maltratados pelos seus
professores, naturais da ilha indonésia de Flores, dizendo que os
timorenses eram ‘buta huruf, miskin e terbelekkan, analfabetos, pobres e atrasados’
e que se sabiam alguma coisa era por causa do dinheiro da Indonesia”.
Na manhã do dia 6 de Fevereiro de 1989, tomei a decisão de escrever ao
Secretário Geral das Nações Unidas, o peruano Perez de Cuellar: Era este
o conteúdo da carta:
“Tomo
a liberdade de escrever a Sua excelência o Senhor Secretário –Geral
para levar ao seu conhecimento que o processo de descolonização de Timor
Português ainda não está resolvido pelas Nações Unidas e convém não
deixá-lo no esquecimento. Nós, o Povo de Timor, pensamos que temos de
ser consultados sobre o destino da nossa terra. Por isso, como
responsável pela Igreja Católica e como cidadão de Timor, venho por este
meio pedir a Sua Excelência que inicie um processo genuíno e
democrático de descolonização em Timor Oriental a ser realizado através
de um referendo. O Povo de Timor tem de ser ouvido através de um
plesbiscito quanto ao seu futuro. Até agora, o povo ainda não foi
consultado. São os outros que falam em nome do Povo. É a Indonésia que
diz que o Povo já escolheu a integração, mas o próprio povo de Timor
nunca disse isso. Portugal quer deixar ao tempo a resolução do problema.
E nós vamos morrendo como povo e como nação. Sua excelência é um
democrata e um defensor do direitos humanos. Peço-lhe que demonstre por
actos o respeito devido quanto ao espírito como á letra da carta das
nações Unidas, que concede a todos os povos o direito de decidir sobre o
seu próprio destino, livre, consciente e responsavelmente. Excelência
mão há maneira mais democrática de sondar o desejo supremo do povo
timorense do que a realização de um Referendo promovido pelas nações
Unidas para o Povo de Timor”.
Posso dizer que depois
do envio dessa carta, ao longo de vários meses, tive grandes
sofrimentos: da parte das autoridades indonésias e da parte dos meus
superiores hierárquicos. Um chegou a dizer: “Tu és o único bispo
católico a agir dessa forma”.
Em 12 de Outubro de 1989, o Papa
João Paulo II visita Díli e reza a missa em Taci Tolu. Depois da missa
deu-se a manifestação da juventude. Sua santide perguntou-me o que é que
os jovens queriam. Disse-lhe: “Santidade, estes jovens estão a
manifestar-se para mostrar ao Papa que eles estão a sofrer…”. O Santo
Padre apenas olhou e para os manifestantes e para as cadeiras lançadas
contras o jovens e para a poeira que se levantava.
Sentindo-se
iludidos e ultrapassados pelos acontecimentos e os militares sentindo-se
feridos no seu orgulho, apressaram-se a acusar Igreja de ser a fautora
da manifestação. O major Prabowwo, genro do Presidente Soeharto, e que
não gostava nada do padre Locatelli acusou este salesiano italiano de
ser o cérebro. De facto, naquela mesma tarde do dia 12, pelas 16 horas,
hora de Jakarta e 18 horas, hora de Timor Timur, a Rádio Nacional da
Indonésia, transmitia a noticia de que em Díli, durante a missa do Papa
João II, tinha ocorrido uma manifestação contra o papa João Paulo II, e
que manifestação fora organizada pelo padre Locatelli e pelo alunos do
Colégio salesiano de Fatumaca. Quantos sofrimentos físicos e morais não
passaram naqueles meses os alunos de Fatumaca e os jovens de Díli!
Em
Janeiro de 1990 visitava Díli o Embaixador do Estados Unidos John
Monjo. De novo 400 jovens aproveitaram a ocasião para se manifestarem
para uma diante do Hotel Turismo.
Visita da Delegação dos Parlamentares Portugueses
A
9 de Maio de 1989, iniciam-se em nova Iorque, sob os auspícios das
Nações Unidas, conversações sobre as condições a que deve obedecer a
eventual visita dos deputados portugueses a Timor. Ali Altas, Ministro
dos Negócios Estrangeiro da Indonésia, anuncia publicamente a aceitação
da Indonésia, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal declara
que se trata de uma visita de observação e não de apuramento de factos.
Em 20 de Junho, representantes de Portugal e da Indonésia assinam um
compromisso em Genebra. Em 20 de Maio de 1990, a Assembleia da República
de Portugal aprova a visita, com “salvaguarda de regras internacionais e
o direito dos povos à autodeterminação. Dois dias depois o Embaixador
de Portugal entrega aos representantes da Indonésia na ONU uma
declaração final. No da 25 de Junho os representantes de Portugal e da
Indonésia chegam a acordo de princípios em Nova Iorque.
Entretanto,
em Junho de 1990, em Baucau, José da Costa, Mau Hudo, conselheiro
político da CNRM, reuniu em Baucau, com líderes de movimentos
clandestinos. Desse encontro resultou o estabelecimento em Díli do
Comité Executivo da Frente Clandestina, e foram escolhidos como
responsáveis, os jovens Constâncio Pinto, Donaciano Gomes José Manuel
Fernandes. Foram estes que organizaram a manifestação no fim da missa do
Papa em Tacitolu. A missão da Frente clandestina de Díli era preparar
os jovens para uma possível grande manifestação durante a visita dos
Deputados Portugueses.
Em 5 de Agosto, a Indonésia aceita
oficialmente os termos de referência apresentados por Portugal. No dia
13 de Setembro dá-se a assinatura de acordo entre Portugal e Indonésia. A
21 desse mesmo mês, a Indonésia aceita a isenção de vistos para os
deputados e a liberdade total de movimento da delegação. Entretanto, a
21 de Outubro de 1990, a Indonésia veta o nome de três jornalistas que
deveriam integrar a delegação portuguesa (Mário Robalo, Rui Araújo e
Jill Joliffe). O presidente da República de Portugal, o Presidente da
assembleia e o Primeiro-ministro exigem a aceitação de todos os nomes
propostos. A 28 de Outubro, Alia Alatas só vetou o nome de Jill Jollife.
A 26 de Outubro, Portugal suspende a visita enquanto se mantiver o veto
a Jill Jollife. A prevista deslocação dos deputados portugueses a
Timor, prevista para Outubro de 1991, suscitou imensas expectativas
entre o povo timorense. Da parte da resistência, os timorenses ao longo
de meses de trabalho clandestino estavam a preparar manifestações de
apoio à delegação portuguesa e cartazes em que pediam a autodeterminação
de Timor contra a ocupação indonésia. Da parte dos integracionistas
estavam também a prepara manifestações contra a visita. Mas quando se
soube que a visita ia ser cancelada, geraram-se reacções mais
contraditórias: os indonésios e os pró-itegracioanistas ficaram
satisfeitos pelo cancelamento e um grande sentimento de desilusão invadi
os da resistência desiludidos. De Facto, sob o comando de Xanana Gusmão
estava-se pensar uma grande manifestação em Díli.
Em Setembro de
1991, a Igreja escreve uma carta pastoral dando orientações aos fieis
caso a visita dos deputados portugueses se viesse a concretizar.
Entre
os dia 21 e 27 de Outubro desse ano, um grupo de jovens
pró-independência refugiou-se na residência dos pároco de Motael (em
Díli). No dia 27 à noite, elementos dos serviços secretos indonésios e
de timorenses “ninjas” e “mahu” invadem os espaços da igreja de Motael,
provocando distúrbios, e em consequência disso, houve duas vítimas
mortais; da parte da resistência o jovem Sebastião Gomes foi
assassinado, e da parte da integração, outro jovem de nome Afonso
Henriques encontrou a morte.
Por volta das duas horas de
madrugada os sinos começaram a repicar dando sinal de assalto. Fui
acordado pelo contínuo “tring-tring” do telefone. Era o meu cunhado
Valentim dos Reis Alves que me chamava de Audian: “Amo, ema assalta ona
Igreja Motael!” (Estão a assaltar a Igreja de Motael). Chamei o meu
conduto, Mau Kai e dirigi-me ao recinto da Igreja de Motael.Ao long da
estrada havia soldados e policias armados. Em Motael, as pessoas que ali
se encontravam em situação de sobressalto e aflição. Perguntei aos
presentes: “O que é que aconteceu” – Ninguém respondia. Pergunto ao
Padre Ricardo: “O que é que se passa aqui?”. O padre manteve-se em
silêncio e só olhava para mim. Um jovem que se encontrava junto do padre
sussurrou:: “Amo, sira oho tiha ona Sebastião.”(Senhor Bispo, mataram o
Sebastião). Onde é que o mataram? pergunto eu: “Amo, iha Igreja oin,
latan hela iha nebá…). Dirigi-me ao local. O rapaz que uma semana antes
me tinha acompanhado na visita pastoral que fiz à estação missionária de
Lolotoi, jazia ali, á beira da estrada, sem vida. O senhor Governador
Mário Carrascalão que entretanto chegara ao local; foi ver o cadáver do
Sebastião.Virou o corpo do jovem ; as costas estavam crivadas de
balas…Disseram-me que havia outro morto, este da parte dos “Mau Hu”, mas
não conseguimos ver o seu corpo, porque já antes da nossa chegada, fora
levado para o hospital. Esse jovem era natural de Watolari e chamava-se
Afonso de Jesus e morava para os lados do Bairro Pité. Estive lá até às
5 de madrugada. Pelas 5.30 chegava o vice governador com o comandante
militar e pediram autorização para revistar a Igreja, pois na torre e no
coro, estavam ali escondidos alguns jovens. Às seis horas fui até
Fatumaca levar jovem Olandino Xavier Fernandes ao Colégio. Regressando a
Díli, dirigi-me á residência dos pais do Sebastião Gomes, na zona de
Vila verde, para apresentar as minhas condolências á família. Dali segui
para o Biarro Pité, onde rezei junto do caixão do Afonso. Pelas 16
horas, presidi à Eucaristia do corpo presente, na Igreja de Motael e
acompanhei o féretro do jovem Sebastião Gomes até o Cemitério de Santa
Cruz. O Jovem Sebastião era natural de Waimori, Viqueque. Tinha uns
dezoito anos. Andava no SMA, mas faltava muitas vezes às aulas, porque
dizia: “Mais vale perder o exame do que perder a independência”. Ele um
rapaz alto e tinha um corpo atleta. Nas viagens que fiz a Watolari e
Bobonaro, pedi-lhe para me acompanhar e ser ajudante do meu motorista.
Na viagem que fizemos a caminho de Maliana, ele ao ver o território
indonésia, dizia cheio de orgulho: “ Amo, qualquer dia, aquelas
montanhas serão nossas!”. Chegado a Lolotoi enquanto eu ia confessar e
rezava missa ou crismava, ele mantinha os seus contactos com os jovens
da resistência. Semanas antes, tínhamos estado em Watocarbau
(Lesi-Rubi). Ele não parava ma Igreja. A Missão dele, era outra,
contactar os colegas da resistência…
O MASSACRE DE SANTA CRUZ A 12 DE NOVEMBRO
No
dia 12 de Novembro, Terça-feira, celebrou-se na igreja de Motael uma
missa de sufrágio por alma de Sebastião Gomes. (Era o décimo quinto da
morte do jovem da resistência. Assistiram a essa cerimónia cerca de mil
pessoas, na sua maioria jovens (rapazes e raparigas). A missa foi
celebrada pelo então pároco, pe. Alberto Ricardo, e hoje Bispo de Díli,
começou as 6. horas de manha. À comunhão abeiraram-se muitos jovens para
da mesa eucarística. Recordo dois dias (Domingo) muitos foram
confessar-se comigo em Lecidere; outros fizeram a sua confissão noutras
igrejas. Depois da missa, organizou-se um cortejo em direcção ao
cemitério de Santa Cruz, onde seriam colocadas coras de flores sobre a
campa e acenderia as velas em memoria de Sebastião Gomes. E, depois
seguiriam para Lecidere, onde estava situado o Hotel Turismo, para ai se
manifestarem diante do Raporteur das Nações Unidas, o holandês Peter
KOOIMANS. Durante o percurso, rezavam o rosário. Havia alguns mais
entusiastas que gritavam “Viva povo maubere, viva Timor leste
independência”, o que obrigava os organizadores a manterem a disciplina:
“Eh! nonok; Eh! disciplina, Eh!ordem,”. Mesmo assim notavam-se no
cortejo grupos de Intel timorenses, que ao passassem diante do Kodim,
atiravam pedras contra os edifícios. Houve quem desse uma facada a um
major indonésio, chamado Gerhana.. À medida que o cortejo avança, iam-se
juntado mais pessoas, sobretudo estudantes. Em Balide, os alunos do
Externato de S. José e do Colégio “Santo Yosef”.dirigido pelo Jesuítas,
saíram das salas e integraram-se na procissão. Chegados ao recinto do
cemitério, muitos dos jovens saltaram para os muros do cemitério e
começaram a gritar : “Viva Povo maubere”, “Viva Xanana Gusmão”, “Viva
Timor Leste Independente”, outros continuava a rezar. E eis que do lado
de Taibessi surge um pelotão de soldados indonésios, armados, e vestidos
de camisolas brancas, entra no cemitério dos soldados indonésios (Makam
Pahalawan), e sem aviso prévio disparam metralhadas sobre os
manifestantes. Era mais ou menos 8.35, hora local. Os que estavam em
cima dos muros caiam como passarinhos inanimados, Gera-se grande
confusão dentro do cemitério. Os mais hábeis saltam por cima das campas e
do cerco, saem do cemitério correndo para sítios mais seguros. Outros
são mortos do cemitério; muitos ficaram aí cercados; foram esbofeteados,
e apanharam coronhadas. Um grupo de 150 recolheu-se na casa do Bispo em
Lecidere. Outros tentaram chegar até lá, mas foram interceptados,
presos, torturados. (até o um cozinheiro foi preso e espancado).
Entretanto, em Santa Cruz, os soldados indonésios trataram logo de levar
os corpos e de lavar o chão com restos de sangue. O Senhor Manuel
Carrascalão que por ali passara disse que viu um “hino” (camião militar)
a carregar 50 corpos.
Entretanto, à minha casa em Lecidere (Paço
episcopal, os jovens que ficaram ilesos do troteio foram chagando,
rapazes e raparigas, alguns já feridos, e outros ofegantes, cheios de pó
e suor. Tinham chegado também dois jornalistas americanos, feridos e
ensanguentados e cheios de suor (Alam Nair jornalista do New Yor Times e
Amy Goodman da rádio WBAI. Estava apavorados. Rapidamente me contaram o
que tinha acontecido. Ao jornalista Alan Nair tive de dar uma camisa
minha para ele vestir, pois a que trazia estava empapada de sangue e de
suor. Pouco depois seguiram para o aeroporto de Comoro e saíram de
Timor. Outro jornalista, de Nova Zelândia, Kamal Bamahdja, que seguia no
cortejo, foi morto. Outro, Max Stahl, que filmou parte do massacre,
escapou-se. Foi graças ele que o mundo viu as imagens do cemitério. De
Santa Cruz. Ele, estava no cemitério, quando os soldados dispararam
sobre os manifestantes. Prestes a ser apanhado, escondeu o filme debaixo
de uma pedra em cima duma campa. Por volta das 11 horas voltou para lá e
consegui retirar o filme, que depois foi entregue ao padre Walter,
salesiano belga. Este foi ao aeroporto e entregou a uma senhora
holandesa, que levou para Holanda .O vídeo foi para o ar na Grã Bretanha
no inicio da semana seguinte, 18, de Novembro e depois para todo o
mundo.
Entretanto, na Indonésia, os meios da comunicação social
falavam de um simples incidente e de um conflito entre grupos rivais da
GPK (Fretilim, comunista).
Voltando aos jovens que se tinham
refugiado em Lecidere. Naquela manhã do dia 12, Terça-feira, celebrei a
missa na capela de Lecidere, e contava sair às 8.00 h para o escritório,
no edifício da Câmara Eclesiástica um edifico situado em frente do
Porto de Díli. Entretanto, chega uma pessoa que queria falar comigo.
Estávamos na conversa na escadaria, quando oiço tiros de metralhadoras:
“tra,tra, tra…”, durante dois minutos. Eram 7.40. Nisto, vejo grupos de
jovens que vinham a correr cheios de aflição em direcção à minha casa,
e, sem me pedirem autorização entram pela casa dentro. Pergunto: “O que é
que acontece?”- Ninguém respondeu. Chegam outros com sinais de terem
sido atingidos pelas balas. Chegava também o Reitor do Seminário, Pe.
Karol Albrecht Karim, SJ, que me dizia:”Uskup, houve uma matança no
Cemitério de Santa Cruz!” Aos jovens sentados debaixo das mangueiras e
dos coqueiros, mandei-os entrar para o pátio interior. O número ia
crescendo. Vendo que era já uma multidão, e, estando a par do que se
tinha passado, mandei-os entrar para dentro da “Casa da Divina
Providência”. Minutos depois telefonei ao Senhor Governador Mário
Carrascalão, pondo-o ao corrente do que se estava a passar. Ele
respondeu-me que estava a par dos acontecimentos e que iria passar pela
minha casa para ver os jovens ali refugiados. Pelas 11 horas
desloquei-me ao Cemitério da Santa Cruz. Seguia também para lá a esposa
do Governador, Dona Helena Carrascalão. Quando chegamos ao local, vimos
soldados indonésios armados com cara de poucos amigos. Alguns ao
verem-me, começaram a rogar pragas dizendo palavrões em Indonésio e
Tetun. Entrámos dentro do recinto do cemitério. Estavam 70 jovens de
corpo nu e com as mão sobre a cabeça. Iriam ser conduzidos para as
camionetas e levados para o Kodim de Díli, onde seriam mais tarde
barbaramente torturados.
Dirigi-me à capela do Cemitério e vi que
estavam ali seis ou sete jovens gravemente feridos. Conheci um, que era
professor na missão de Ermera. Pediu-me água (Amo, Hau hamrok). Apenas
me ajoelhei e dei-lhe a bênção. Voltei para Lecidere. O recinto estava
cercado por soldados indonésios. Falei com os jovens que não podiam
permanecer mais tempo naquele local, pois isso poderia provocar a
entrada dos soldados indonésios na minha casa. Ofereci-me para os levar
ás suas casas e aldeias. Contactei o padre Indonésio Markus Wanandi,
jesuíta e director do Colégio santo Yosef. A partir das 12.30,
acompanhado pela irmã canossiana Margarida Soares, fui levando grupos de
seis ou sete para as suas casas, em diferentes bairros da cidade. Uma
vez chegados ao bairro, eles teriam de procurar refúgio, escondendo-se
em casas dos familiares ou porventura, afastarem-se de Díli, indo para
as montanhas. Infelizmente, muitos deles, foram apanhados e levados para
os comandos militares. Outros, sentindo-se inseguros, voltaram para
Lecidere. Naquela noite, recebi um telefonema de um seminarista de
Mauchiga, dizendo-me que o cunhado dele, enfermeiro, tinha lavado 70
cadáveres. Nessa mesma noite, segundo um jovem de Oecusee, Carlos
Mustfa, 50 jovens foram levados para os lados de Tibar e ali foram
fuzilados. Nessa mesma noite do dia 12, outros jovens foram mortos na
casa mortuária, junto do Hospital: esmagavam-lhes cabeça com pedra e
outros receberam injecções de água. Por volta das 22 horas, as luzes
foram apagadas, e muitos corpos foram transportados para local
desconhecido.
No dia 13, de manhã, desloquei-me ao Hotel Turismo
para falar com o Raporteur da ONU, Peter Kooimnas. Perguntei-lhe se
sabia do acontecimento do dia anterior, Disse que não sabia e que na
altura dos tiros, encontrava-se nos escritórios do Comandante Militar
Warrow a combinar uma visita a uma capela nos arredores de Díli. Quando
lhe ouvi falar de capela, fiquei chateado e disse-lhe que as pessoas
eram mais importantes que as capelas e que ele deveria interessar-se
pelos abusos dos direitos humanos ali praticados pelos indonésios.
Depois dirigi-me ao Comando Militar no Bairro de Farol para falar com o
General Warrow, pedindo-lhe autorização para visitar os feridos no
Hospital. A autorização foi-me dada no dia 14 de manhã. As dez horas
dirigi-me ao Hospital em Lahane. Encontrei centenas de jovens feridos,
com as caras toda negras, irreconhecíveis. Uns deitados nas camas e
outros estendidos no chão, As enfermarias estavam superlotadas, outros
estendidos nas varandas. Naqueles dias, a cidade de Díli era uma “cidade
cemitério”: quase deserta…pairava um ambiente de medo, insegurança,
luto e tristeza.
Quanto aos números de vítimas mortais: Há quem
fala em 270, outros em 400. Eu sempre dizia, que era melhor perguntar
aos indonésios, pois eles é que mataram, eles é que recolhram os corpos e
eles saberão dizer onde é que deixaram: se no mar, se nas valas comuns,
se nos lagos…
Depois do massacre, o Governo de Jakarta formou
uma Comissão de investigação. (Os membros eram: o general reformado M.
Djaelani, como presidente, e por seis membros, Hadi Alhadar, Clmentino
dos reis Amaral, Beng Mang Ren Say, Hari Soegiman, o almirante Anton
Sujata e o general Soemitro). A comissão, depois de vários inquéritos,
chegou a conclusão que os mortos de Santa cruz foram 19, e os feridos
91. No relatório final, em vez do número 19, escreveram 50 o número de
mortos.
O General Sinton Pajaitan Comandante da Região Militar
Udayana IX, e o brigadeiro General Rudy Warrow foram destituídos dos
seus cargos. Mas, mais tarde, o General Sinton Pajaitan foi escolhido
para assessor do Presidente Habibie; O general Warrow, passou à reserva e
foi nomeado vice-presidente da Comissão Nacional dos Desportos, o chefe
da inteligência, Stephanus Gatot, passou à reserva e, tornou-se um dos
administradores da Telecom Indonésia em Bandung. Os batalhões 330 de
Jakarta e 700 de Sulawesi (Celebes) envolvidos no massacre, voltaram
para os seus quartéis.. Líderes timorenses pró-integracionsitas
recriminava a resistência e a Igreja por terem dados demasiado apoio aos
jovens e reprovavam a atitude dos próprios jovens( O Buapti de Díli
repetia com sarcasmo: “gara gara kaum muda GPK”.
No Mês
de Dezembro, por altura do Natal, os Militares costumavam organizar
celebrações ecuménicas do Natal, onde juntavam líderes das religiões
oficias em Timor: catolicismo, protestantismo, islamismo, hinduísmo e
budismo. Como protesto contra o massacre de santa cruz, nesse ano,
decidi afastar-me de Díli, e fui passar o Natal em Kelicai.
Apesar
da pressão internacional, para que a Indonésia melhorasse as condições
dos direitos humanos em Timor, os militares intensificaram a acção
militar no sentido de esmagar a Resistência e capturar os comandantes da
guerrilha. O Comandante Xanana que estava escondido na casa de Dona
Aliança Araújo, irmã do Sr. Abílio Araújo, um dos fundadores da
Fretilin, foi preso pelas cincos de manhã, do 20 de Novembro de 1992,
pelos comandos indonésios (Kopassus). Levado para Denpasar, ali foi
torturado e obrigado a apoiar a integração. Foi julgado e condenado.
Mesmo preso consegui resistir até ser libertado em Setembro de 1999. Os
jovens continuavam a fomentar manifestações. O seu substituo Mau Hunu
foi preso em Abril de 1993, em Ainaro. O substituo de Mauhuno foi Konois
Santana, e a seguir Taur Matam Ruak.
Em 1996, O Comité Nobel de
Oslo decidiu atribui o Prémio Nobel da paz a dois timorenses. Em 1998, a
República da Indonésia entra em recessão económica e o Presidente
Suharto que governava Indonésia desde 1965 foi obrigado a demitir-se.
Como terceiro presidente da RI, escolheu-se o Vice-presidente e antigo
Ministro da Tecnologia Yusuf Habibe. Sopravam ventos favoráveis à causa
timorense. Os estados Unidos e a Austrália, mudam a sua posição e
aconselham o Governo Indonésio a realizar uma consulta popular ao povo
Timorense. O presidente Habibie tomou a decisão de anunciar em Janeiro
de 1999, a realização de uma consulta popular, apresentando duas opções:
a primeira, aceitação autonomia dentro da republica da Indonésia, ou
rejeição da autonomia. No Referendo de 30 de Agosto de 1999, 87,5 dos
Timorenses escolheram a não autonomia, e consequentemente a
autodeterminação.
A Independência segundo o Direito Internacional foi reconhecida em 20 de Maio de 2002.
Foi
um longo período de sofrimento. Mas os timorenses estavam dispostos
correr todos os riscos para serem livres e soberanos do que ser
integrados na Indonésia. Por isso, muitos diziam em Tetun, quando eram
perseguidos, presos e torturados. “Ukun Rasik–aan”.
Respeitando
as famílias que perderam os seus filhos, podemos afirmar que as vidas
dos jovens e adolescentes que foram massacrados no dia 12 de Novembro de
1991 serviram de trampolim para a continuação da Luta e para a
Independência de jure e de facto de Timor Leste. Em
memória desses Mártires da Pátria timorense, elevo a Deus as minhas
humildes preces pelos vivos e pelos mortos, presto a minha mais alta
homenagem aos que tombaram no Cemitério de Santa Cruz! “Ditosa Pátria, que tais filhos teve!”
Mogofores, 12 de Novembro de 2008.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo
Colaborador e artigo em exclusivo ao Forum Haksesuk